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Bananeiras, abelhas e água: o modo guarani de vida em comum

Tecnologias comunitárias desenvolvidas por indígenas no cinturão verde guarani materializam na cidade de São Paulo outras formas de relação humana com a natureza

“Quem dera eu pudesse fazer uma mágica para nos tirar desse confinamento, que pudesse fazer todos sentirem a chuva cair. É hora de contar histórias às nossas crianças, de explicar a elas que não devem ter medo. Não sou um pregador do apocalipse, o que tento é compartilhar a mensagem de um outro mundo possível.”

As palavras acima estão no livro “O amanhã não está à venda”, do líder indígena Ailton Krenak. Escrito em meio à pandemia de covid-19, Krenak produz uma reflexão de resistência ao exercício da necropolítica, como ele mesmo qualificou a política do governo federal de banalização das mortes diante do novo coronavírus.

Se Krenak ou qualquer povo indígena não pode “fazer mágica”, suas práticas originárias, por outro lado, carregam não apenas a mensagem, mas o exercício cotidiano de um outro mundo possível. E cada vez mais necessário.

E é justamente em São Paulo, na cidade-símbolo de um modo de vida baseado na superexploração do trabalho e na distribuição desigual dos recursos, que pulsam outras experiências de relação humana e interação com a natureza, a partir da produção coletiva de tecnologias para um modo de vida em comum.

Não adianta reflorestar ou proteger a natureza ignorando as abelhas nativas que, pela polinização, enriquecem a biodiversidade das áreas

Localizada nas margens da cidade de São Paulo, a Terra Indígena Jaraguá, que reúne 125 famílias do povo Guarani Mbya, mantém suas próprias práticas de preservação ambiental que possibilitaram, por exemplo, o ressurgimento de abelhas nativas da Mata Atlântica, anteriormente extintas na região.

Articulando conhecimento tradicional e técnicas que privilegiam o respeito à natureza, as famílias guarani instalaram um meliponário — conjunto de colmeias de abelhas sem ferrão — a partir de pequenas caixas apoiadas em estacas, onde as espécies se reproduzem e produzem mel.

Atualmente, 42 colônias de sete espécies de abelhas nativas — uruçu amarela, tubuna, mandaçaia, mandaguari amarela, moça branca, mirim e jataí — estão instaladas nas aldeias tekoa Ytu, tekoa Yvy Porã e tekoa Yta endy. O cultivo é fundamental para o fornecimento do mel utilizado na produção de remédios naturais para os mais velhos, os mesmos que, por meio da cultura oral, incentivaram os mais jovens a recuperar técnicas tradicionais para a reaparição de abelhas, que eram comuns antes do avanço imobiliário e comercial na região.

O trabalho dos Guarani tem também um caráter educativo e de preservação da memória. Por meio de cursos de meliponicultura, jovens e crianças compreendem a importância das abelhas para manter seus corpos e territórios saudáveis. Essa perspectiva transcende a relação de mero uso exploratório por compreender que não adianta reflorestar ou proteger a natureza ignorando as abelhas nativas que, pela polinização, enriquecem a biodiversidade das áreas.

Logo nos primeiros meses de existência, no início de 2017, a tekoa Tape Mirĩ, localizada na Terra Indígena Tenondé Porã, precisou desenvolver tecnologias comuns para reverter problemas de uso de água captada em nascentes próximas à aldeia. Longe de ser uma exceção, dados do IBGE revelam que 37,5% da população brasileira enfrenta situação semelhante de falta de acesso à água e ao saneamento básico.

Além da negação de um direito fundamental, vale lembrar que não raramente povos originários e comunidades tradicionais têm que resistir a tentativas de transformação de rios, manguezais e lençóis freáticos em produtos de exploração do turismo predatório, da pesca industrial, da especulação imobiliária e dos impactos de parques eólicos, portos, mineradoras e outros megaprojetos.

Visando reverter esse cenário, em uma mobilização que envolveu as diversas famílias da tekoa Tape Mirĩ, articuladas a parceiros não-indígenas, como o CTI (Centro de Trabalho Indigenista), foi possível implementar sistemas de coleta e tratamento da água antes do descarte.

Esse processo teve início com a limpeza, recuperação e proteção de nascentes, por meio da construção de uma caixa com uma mistura de cimento e terra ao redor das nascentes, preenchida com pedras de modo a protegê-las de sujeiras e da erosão.

A partir disso, através de canos de PVC, o fluxo da água — sem contato com o exterior — é direcionado para uma caixa d’água que abastece toda a aldeia e, ao mesmo tempo, segue seu curso natural, por meio de um “ladrão” instalado na caixa.

Assim, reunindo saberes tradicionais, numa relação de não-agressão à natureza, a Tape Mirĩ demonstra ser possível um outro uso da água, em oposição ao projeto recentemente aprovado no Senado (PL 4.612/2019), que facilita a privatização do saneamento e permite algo absurdo para os povos indígenas: a venda da água em qualquer que seja a quantidade.

Além da captação e distribuição da água de forma coletiva, a comunidade guarani da tekoa Tape Mirĩ buscou também garantir a limpeza antes do descarte, afinal, é preciso saber devolver aquilo que tiramos da natureza.

Desse modo, após passar por uma caixa que retém resíduos de gordura, a água é filtrada em um círculo de bananeiras, sendo uma parte absorvida pelas raízes e posteriormente evaporada, e outra parte absorvida pelo solo e tratada por microrganismos. A escolha da bananeira como filtro natural que não contamina o solo se deu por seu alto teor absorvente e de evapotranspiração, podendo variar entre 15 e 80 litros diários de água, dependendo das condições do ambiente.

Ainda com relação à água, outra tecnologia gestada na aldeia Tape Mirĩ foi a criação de um fogão-foguete à lenha, como forma de produzir água quente sem depender de eletricidade. O formato e as proporções do fogão-foguete produzem um efeito de sucção do ar que garante a geração de mais calor com menos combustível (lenha) do que uma fogueira comum. Assim, a água aquecida sobe, puxando a água fria que vem debaixo, fazendo um movimento circular que aos poucos vai aquecendo todo o reservatório.

Todas essas tecnologias são produzidas a partir de saberes ancestrais e de modo comunitário, visando a resolução de problemas coletivos. Podemos aprender mais com a cultura guarani e fortalecer seus territórios caso o projeto de lei 181/2016, o PL do #CinturaoVerdeGuarani, passe na Câmara dos Vereadores e seja sancionado pelo prefeito Bruno Covas, atualmente em campanha pela reeleição.

É com experiências reais que famílias de Terras Indígenas do povo Guarani demonstram ser possível, nas margens da maior metrópole urbana da América Latina, não apenas resistir ao modelo predatório capitalista como também construir um outro modo de vida em comum, que deve ser respeitado e preservado para que não desapareça — como ocorreu com as abelhas da Mata Atlântica.

Paulo Victor Melo é jornalista, doutor em comunicação e cultura contemporâneas e integrante do Conselho Diretor do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

Verá Mirim Marcio M. Boggarim é indígena e integrante da Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo/SP.

Tapayuna Kitaulhu é indígena e integrante da Terra Indígena Tenondé Porã, em São Paulo/SP.

Este texto foi elaborado a partir de um diálogo entre integrantes do Intervozes e lideranças indígenas guarani, como parte da campanha pela aprovação do Projeto de Lei do #CinturãoVerdeGuarani, que busca fortalecer as terras indígenas e a cultura do povo Guarani na cidade de São Paulo. A campanha é uma realização da CGY (Comissão Guarani Yvyrupa), em parceria com o CTI (Centro de Trabalho Indigenista) e o Intervozes, apoiado pela Fundação Rosa Luxemburgo.


Fonte: Post Completo

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