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Micareta Hilton Lacerda eletriza o Canal Brasil

Vencedor do troféu Redentor de melhor filme no Festival do Rio de 2019, “Fim de Festa” é um thriller policial com cheiro de “Veludo Azul”

Rodrigo Fonseca
Tá um brinco a programação que André Saddy vem guiando para o Canal Brasil, a se destacar as boas deste domingão à noite, com “Romance Policial” (2014), de Jorge Durán, às 20h20, abrindo os caminhos para uma maratona Hilton Lacerda, de carona no lançamento de “Fim de Festa”. Ao conquistar o troféu Redentor de melhor filme no Festival do Rio, em dezembro, derrotando favoritos com mais holofotes, este suspense antropológico do diretor e, sobretudo, roteirista pernambucano (o melhor autor de diálogos do cinema nacional na atualidade) foi classificado como “um ‘Veludo Azul’ tropical atlântico” por provocar uma contínua evocação ao cult de David Lynch, mesmo inconscientemente. Lançado em circuito no dia 5 de março, no olho do furacão da pandemia da Covid-19, o thriller foi extirpado das salas, que fechavam suas portas e telas por conta da 40ena. Agora, ele volta pelas vias da TV, numa exibição casada com (o magistral) “Tatuagem” (2013) e “A Febre do Rato” (2011), que Lacerda escreveu pra Cláudio Assis.

Vai ter repeteco de “Fim de Festa” no CB nesta sexta, dia 21/08, às 23h15; madrugada de segunda pra terça, dia 25/08, às 2h20; e madrugada de quarta pra quinta, dia 27/08, às 4h10. São essas as datas pra acompanhar a investigação feita pelo policial federal Breno Wanderley (papel de Irandhir Santos) num Recife de fim de folia. Tirado das férias no carnaval, ainda sob a ressaca de um delito passado que assombra seus passos, Breno tem o desafio de desvendar as circunstâncias do assassinato de Emma (Maria Barreira), francesa morta a pauladas em meio ao frevo. Se o caso não se resolve estoura um incidente internacional. Mas o mundo mais arcaico onde a palavra da Lei era palavra de ordem mudou. Existe a fluidez. Ela puxa o trio elétrico.
Saindo dessa micareta investigativa, o Canal Brasil nos tatua com perfume e serpentina. Do fino da fossa à apoteose da saudade, do desabafo amoroso à marchinha, da ladainha romântica à quaresma pós-Quarta de Cinzas, duas canções servem de bússola à “Tatuagem”. Arquitetado como sinestesia a partir da fotografia sensorial de Ivo Lopes Araújo, o longa foi responsável por consagrar Lacerda como diretor de ficção. Em seu eixo de abertura vem “Esse cara”, e, de seu fecho, brota “Bandeira branca”. No trânsito de uma música à outra, numa reconstituição de Pernambuco em 1978, acossado pelo governo militar, uma paixão de opção declarada pela igualdade vai sendo costurada, ao mesmo tempo em que se desenha um painel de formas de resistência à repressão (ditatorial, sexual, em suma, ideológica). Nele, uma trupe teatral, alocada em um cabaré, o Chão de Estrelas, serve como um bunker para a liberdade a fim de combater a opressão fardada no governo, ao mesmo tempo em que o diretor/mentor do grupo se joga nos braços de um soldado recém-integrado às Forças Armadas.

“Tatuagem” foi o vencedor do Kikito de melhor filme em GRamado, em 2013

Quem mais (e melhor) resiste aos milicos (e a todo o resto), no recorte histórico e estético de Lacerda, são as artes. De um lado, a arte de representar (na forma do teatro, da poesia e do cinema) e a arte de amar (na forma fálica de um aríete em marcha contra a hipocrisia). No casamento desses dois hemisférios, celebrado em um gesto político, surge um longa muitas vezes rotulado de “filme-gay”, que transcende bandeiras. O corpo é seu leme, seu norte. O corpo como estandarte da vida, em suas planícies e falésias, seus desastres e seus carnavais.
Incorporando Maria Bethânia, de microfone em punho, Clécio Wanderley (Irandhir Santos), ator, dramaturgo e cabeça do clã de artistas responsável pela ocupação do Chão de Estrelas, amplia a libido do Recife dos anos 1970 ao som de “Esse cara”. Nos versos “Ele está na minha vida/ porque quer/ eu estou pro que der vier”, Clécinho dá sinal verde para que desejos tatuados em corações empapuçados de cerveja ganhem forma e suor. Entre eles o desejo que sente por um jovem recruta, Arlindo, vulgo Fininha, interpretado por Jesuíta Barbosa. Os beijos trocados por eles nas madrugadas pavimentam uma relação sólida em um mundo em transformação: uma cidade que, feito um espelho do Brasil, reflete as instabilidades políticas dos anos de chumbo. Um mundo desafiado pelas irreverências de Clécio e seus atores em números musicais como a “Canção do Cu”, mimo da trilha de DJ Dolores.
Mas o bem-querer de Clécio e Fininha é apenas uma de muitas relações cimentadas por Lacerda numa narrativa interessada em conjugar o verbo gostar (de alguém) sob diferentes desinências. Entre elas estão a paternidade (pós-moderna) e a amizade, representada no cabo-de-guerra coberto a plumas entre Clécio e a diva do cabaré, Paulette (vivido por Rodrigo Garcia, em um brinco de atuação).
Xará do thriller dirigido em 1981 por Bob Brooks com Bruce Dern e de um drama alemão de Johannes Schaaf, a “Tatuagem” audiovisual de Lacerda, retocada pela atuação devastadora de Irandhir, demarcou (uma vez mais) o (alto) relevo da linhagem recifense no cinema nacional. Foi abençoada com o Kikito de melhor filme em Gramado, quatro troféus Redentor no Festival do Rio (incluindo o prêmio Fipresci, da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica) e com a fama de ter esgarçado as fronteiras da discussão sobre identidade sexual na tela. E, quando vem “Bandeira branca”, gemido por Dalva de Oliveira como um fado, sabe-se que Lacerda pede paz ao esquadrinhar nossa capacidade de perder e de nos regenerarmos na bitola Super-8 do amor.
Melhor início de semana, impossível, sobretudo se visto a dois.

p.s.: Vez por outra, Sean Penn topa fazer cinemão pra ganhar um troco… e todo mundo sai ganhando com isso. No caso de “O Franco-Atirador” (“The Gunman”, 2015), que o “Domingo Maior” da Globo exibe esta noite, às 22h30, quem mais ganhou foi o StudioCanal, que assina a produção deste thriller europeu de US$ 40 milhões. Sua bilheteria parou em US$ 24 milhões, mas seu prestígio com a crítica foi alto. A versão brasileira a ser exibida traz o desempenho memorável de Marco Ribeiro dublando Penn, escavando todas as dores de seu personagem, o assassino profissional Martin Terrier. Casando de guerras, ele tenta sossegar o facho e a pistola ao lado de sua amada. Mas uma traição vai empurrá-lo de volta ao combate. Idris Elba e Javier Bardem ampliam o quilate deste diamante de sangue, pilotado pelo francês Pierre Morel, do sucesso “Busca Implacável” (“Taken”, 2008).




Fonte: Post Completo

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